
A DITA CUJA: TEXTOS FEMININOS
O Vestido de Noiva Vermelho
Minha vida (ou a maior parte dela) se resumiu em ser preterida. Eu sou o mais bonito e brilhante vestido de noivas já feito, só que me fizeram vermelho. É como se tivessem feito a Capela Cistina ou a Pietá e as pintassem com cor de cabaré. Já tive problemas de autoestima por esse motivo, mas sou leonina filha de Iansã, sou linda! Tenho cor de cabaré sim! E daí?
Enquanto Luana me costurava, as outras costureiras comentavam entre si: que horror! Quem vai vestir esse vestido com esta cor? Nem ousavam dizer “vestido de noiva vermelho”. Luana dizia pacientemente: na China é muito comum! Mas no Brasil, na época em que eu nasci, as mulheres gostavam mesmo era de se casar de branco, champanhe, cores que remetiam a pureza.
Estive por muito tempo em exposição esperando por ela, sabia que tinha sido feita para ela e ela para mim. Sei que sou especial, possuo um tipo de consciência, esse fator quase mágico que me faz perceber o mundo além de mim. Sinto o humor das pessoas como você sente cheiros, tenho um sistema de crenças absolutamente evoluído apesar de não saber o porquê, penso logo existo. Imaginei por mais de cem vezes nosso encontro, idealizei o momento. Contudo, o tempo foi passando e eu fui me tornando empoeirada, até que de alta costura me etiquetaram como promoção, foi a humilhação suprema da minha existência.
Eu nasci para ser perfeita, fui praticamente esculpida. Mas não havia uma só noiva com o mesmo fogo na alma que a autorizasse usar no dia do seu casamento um vestido vermelho. Vi vendedoras que não ousavam me oferecer, vi mulheres rirem de mim e me apontarem como piada. Algumas vezes eu pensava que deveriam mesmo ter me feito na China pois lá, eu seria um sucesso. Sentia-me solta no mundo, Existia uma necessidade suprema de ser resgatada da minha incrível falta de propósito.
No final o que me restou foi a caixa dentro do estoque. Lá revisitei minha memória, quando eu era apenas um croqui, depois um ensaio, Luana e eu conversávamos, ela me entendia, vi sua divindade, brilhantismo, seu talento. Eu, sua criatura mais sublime, aquela que ela colocou toda sua vontade e força, me senti grata, me senti melancólica. Também visitei o mais íntimo do meu ser. Indaguei sobre a minha consciência e por que havia eu de existir com minhas 25.350 contas e 8 metros quase de tecidos. Fiquei 8 anos vestindo um manequim e mais de 20 anos dentro de uma caixa, num maldito estoque.
Até que um dia, quando eu já estava desacreditada e nem sabia mais que cor o meu vermelho brilhante havia se tornado, ouvi um barulho no estoque. E alguém perguntou: e essa caixa? Levantaram a tampa e de repente a luz me atingiu como um raio. Notei o espanto das duas mulheres. A primeira levantou-me no ar, rodou gritando: É vintage! É vintage! Não conhecia nem a moça nem mesmo a palavra vintage. Vintage eu? Espera? Isso é bom? Morri de medo de vintage significar “deve ser picotado”. Pegaram meus croquis, me lavaram, passaram, costuraram as contas que faltavam, e logo voltei para o lugar de destaque da loja. Vintage! Eu vim do passado! De uma época em que as mulheres casavam de branco e mesmo assim alguém muito visionário sonhou comigo. O fato de nunca ter sido usada, me tornou um vintage blasé. Um tipo...meio triste, mas não tem problema, fiquei empolgada do mesmo jeito. Ganhei vitrines, reportagens em revista, depois de quase 30 anos... ah se a Luana pudesse me ver! Foram dias agitados, diversas moças e até um moço quis me provar, fui elogiada, me tocaram, me desejaram, nasci para isso!
Não era mais tão excêntrica como antes, reconheço que os vestidos champanhes que agora se chamam off White ainda são os preferidos e mais luxuosos, mas eu sou vintage! Agora sou muito melhor! O problema que ser assim tão especial não me arrumou nenhuma noiva e eu continuei assim por alguns dias, talvez meses e estando verdadeiramente angustiada com minha situação me pus a imaginar mais 30 anos de caixa.
Já estava entrando em uma crise de baixa autoestima quando entrou na loja uma mulher. Naquele momento eu soube que era ela, todas as minhas preocupações cessaram, creio que as dela também. Reconhecemo-nos instantaneamente, ela pegou os croquis, passou a mão sobre eles e pediu a vendedora que a deixasse me experimentar. Sobre seu corpo nu eu cai delicadamente, a textura de sua pele consentiu, eu estremeci, ajeitei-me suavemente, me encaixei perfeitamente. Uma lágrima rolou em seu rosto, enfim nos encontramos.
Maria Gaby
Sou em essência um espírito encarnado no Mundo Líquido, tentando dar um significado profundo a minha existência.
Sou uma Mulher que para o mundo idealizado deu errado. Nenhum plano, projeto e planejamento funcionaram como eu desejei.
Então, agora me livro da carcaça do medo e do Rancor, que estavam tornando minha existência por demais pesada, para ser um livro de Presente e Verdade.
