
A DITA CUJA: TEXTOS FEMININOS
A Sacerdotisa
Toda Mulher deveria sonhar com vestidos de Noiva e viagens à Paris, já que esse tipo de sonho tornam a realidade menos perversa. A qualidade de sonhar com um mundo colorido e bonito pertence ao universo das mulheres, algumas conseguem transformar isso em seu mundo real, aí surgem festas de casamento incríveis, bolos de três andares, valsas, luas de mel na Europa, exames de gravidez positivos, partos humanizados, filhotes crescendo saudáveis e papais apaixonados.
Mas eu Gostaria de falar sobre outra classe de mulheres, aquela que miseravelmente faço parte, que não realiza os sonhos cor de rosa de todas as mulheres. Somos as descasadas, as solteironas, as estéreis, as mulheres histéricas, que aos trinta estão no limbo, a parte da sociedade. Talvez não seja tão miserável fazer parte deste grupo aos meus 34 anos. Creio que no final, todas as mulheres frequentarão este clube, ora pela viuvez, ora pela separação tardia, quando os filhos saem de casa (os famosos casais que se separam depois de 30 anos de casamento). Ele ao 65, casa novamente, ela aos 60, amarga as rugas na solidão.
Mas não é deste tipo de mulher que quero falar, é do tipo mais parecido comigo mesmo. A ideia agora é que não se tem mais lar, nem sonho de lar, não se tem marido, nem sonho de marido, e também não se tem filhos. O que resta, é apostar na busca pela sabedoria. As portas desta busca se abrem depois de muitas lágrimas, posso testemunhar muitas noites não dormidas, muitas pockets decepções via Tinder, muitas, mais muitas perguntas como esta: "Porque isso aconteceu comigo?!"
Não sobra muita coisa, só aquilo sem suspiro mesmo. Num primeiro momento, se observar bem de perto, a gente se torna meia mulher, porque a mulher para ser mulher inteira precisa ter a dimensão lúdica e o poder de criar nas suas entranhas
Nesse momento só há o "tentar ser digna" e o "tentar ficar viva", não é exagero, gente! A comida fica sem graça, o dia e a noite parecem iguais e o mundo ganha tonalidade da cor "sem graça", mas isso passa, e o que fica é o que eu chamei carinhosamente de "A Sacerdotisa".
Os cabelos são cortados, as roupas são as mais confortáveis possíveis, as sensações ganham uma importância que antes não tinham, e a vida recebe o carimbo "não sou obrigada a nada". Ou seja, gente da família chata - "não sou obrigada", Trabalho chato - "não sou obrigada", educação com gente estúpida - "não sou obrigada". Depois de tanto tempo me anulando, hoje presto atenção nas minhas vontades, e naquilo que me causa sensações. Mas, não é só isto, nós mulheres depois de uma bela rasteira da vida, ficamos mais espertas, e isso nos afasta de quase todos os homens. Não por traumas ou medinhos, mas é porque chegamos a conclusão de que eles, ou pouquíssimos deles, valem a pena. E desculpa a baixeza da piada, não é preciso ficar com o porco todo por causa de uma linguiça, em por falar em linguiça, sou vegetariana, e desculpem mais uma vez a infâmia, nos dois sentidos.
Ficar sozinha é mais uma escolha que qualquer outra coisa. Pra gente, qualquer coisa não serve. Para algumas amigas o PA (pinto amigo) funciona, mas pra mim, entra no quesito - "Não sou obrigada!".
A Sacerdotisa representa toda a busca sabedoria, re-significar tudo, auto análise, aprender a ouvir a intuição. Percebe-se que ser single é ultrajante, e que não há salvação fora do Feminismo. A Sacerdotisa é uma figura feminina, que aparece envolta em um manto, imóvel e misteriosa, com um livro aberto sobre seu colo. É aquela que exige a sinceridade do buscador, é a guardiã do templo, severa, percebe se aquele à sua porta está integralmente comprometido com a causa. Ela possui a revelação dos três níveis da natureza. Ela é calma, serena e absoluta. O véu atrás indica tudo que é de fora e ficou para trás. A Sacerdotisa é pura reflexão interior.
Esta mulher que hoje escreve é estratosfericamente diferente daquela que um dia sonhou com vestidos de noiva, aliás quando volto do trabalho e passo em frente a uma loja de vestidos de noiva, acho todos lindos e penso "que pena que precisa de alguém para poder usar um destes”. Não que eu tenha me tornado avessa a casamentos ou a me apaixonar, mas o nível subiu consideravelmente.
A mulher que sou hoje jamais se casaria com o homem que um dia foi meu marido, nem que ele tivesse a cara do homem mais cobiçado do planeta. Agora tenho dois gatos e algumas missões: controlar a minha mente, aumentar minha intuição, e estar à postos ao Serviço. Cheguei à conclusão que nasci para isto, não há tempo de fugir da minha história.
Maria Gaby
Sou em essência um espírito encarnado no Mundo Líquido, tentando dar um significado profundo a minha existência.
Sou uma Mulher que para o mundo idealizado deu errado. Nenhum plano, projeto e planejamento funcionaram como eu desejei.
Então, agora me livro da carcaça do medo e do Rancor, que estavam tornando minha existência por demais pesada, para ser um livro de Presente e Verdade.
