
A DITA CUJA: TEXTOS FEMININOS
Ana
Ana, ao acordar de manhã, caminhava passos curtos até a TV. Ouvia o Bom Dia Rio enquanto preparava o café. Gostava mais do Márcio Gomes que desse Fachel. Essa coisa de lembrar toda hora da hora dá nos nervos. Enquanto voltava pra sua sala alugada, olhava a cara do Fachel lembrando da despedida de Márcio pra Tóquio. Ia chorando quando ouviu o grito da chaleira. Entre pó, coador e água quente, lembrou-se da mão do rapaz. Quando ele, no carro, gostava de procurá-la com a mão. Coisa corriqueira. Nada demais. Ele nem deve lembrar. Tanta coisa na cabeça, né? Crise financeira, bolha imobiliária, trabalho duro... E ainda aquele panelaço de janela. Fora PT, fora Dilma. Agora acaba a corrupção mesmo. Será que ele lembra? Essas coisas pequenas, desimportantes mesmo. Quer dizer, não era coisa de marcar um dia inteiro. Esse cotidiano efêmero. Do que será que ele se lembra? Será que lembra? O café tá esfriando, melhor beber. Que saudade do Márcio Gomes.
Mariana Xavier
Meu nome é Mariana Xavier, de 25 pra 26 anos, sou mulher, mãe, leão, carioca, professora e historiadora, especialista em Gênero e Sexualidade.
Já escrevi artigos para o coletivo As Invasoras.
Este conto está dentro do meu livro "Ínfimo", que fala sobre a solidão da mulher no passo apressado pela urbe e será lançado agora pelo selo Macabéa da Editora Multifoco.

Imagem/desenho da autora
Mariana Xavier